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  • Juliana Dias

Subindo a ladeira

texto de Adriana C. de Azambuja

Sobe a ladeira, a menina. Na barra de seu vestido branco de lese, voam borboletas azuis a girar em delicados bordados. Pula, canta e gira. Volta e meia coloca em sua pequena bolsa, tesouros que encontra pelo caminho. Pedregulhos viram pedras preciosas. Asas de borboletas são pedaços de sonhos alados.

Sem pensar no fim da ladeira, cantarola as histórias de sua imaginação. Quanto mais sobe, mais sua bolsa enche e cresce. A menina gira, canta e também cresce. Seus cabelos alongam e seu corpo desabrocha. A cada passo uma dança, e a cada dança um amor. Gira e sonha. Pelo caminho, tudo que vê reluz. Em sua bolsa, guarda a sete chaves os sonhos trazidos do início da ladeira.

A certa altura, se rende aos encantos de um homem que a alcança na subida e dança com ela seus sonhos preferidos. Dançam e giram até o pé do altar no branco de véus e de grinaldas. Pura. Inocente. Núpcias de fogo. Tristeza. Decepção. Esse foi o primeiro tropeço. A primeira queda. A ladeira agora pesa. Segue arrastada. A menina mulher carrega sua nova bagagem, cada vez mais indesejada.

Mais um passo, ela gira e dá à luz seu maior tesouro. Alguém enfim iria lhe amar. Alguém para amar. Em um descuido, seu corpo novamente se transforma em dois. E vem seu segundo amor. Linda. Cabelos negros e olhos cor de violeta. Entre novos giros e pequenos lamentos, a mulher pisa em sua solidão. Está exausta. A bagagem lhe pesa sobre o corpo. Ladeira fria. Gelada. Inóspita. Onde estão os sonhos de seu baú encantado?

A tristeza pesa em seu ventre e seu corpo quer expulsar toda dor. Entre madrugadas infinitas, a ladeira se encharca de aguardente e perfume barato. Os batons nas camisas, as barbas malfeitas e os desejos desfeitos. Bagagens de sonhos e pesadelos rolam ladeira abaixo pelo chão de cascalho. O peso estava em seu corpo. Um corpo estranho dentro do corpo. Em seu peito, um enorme caroço de mágoa e tristeza. A mulher o arranca e nasce outro e mais outro e mais outro. Não chora. Extirpa a dor. Arranca o homem-caroço do peito e da alma. Luta feito valquírias em cavalos alados e guerreiras amazonas. Livre, enfim, segue a ladeira.

Agora respira e sorve o ar mais mulher, mais fêmea, mais dona de suas vontades. Dona de seu destino. Segue e sobe a ladeira. Lhe atropela um novo amor na contramão. Segundo tropeço? Ela que andava com os olhos pregados em miudezas pelo chão, vê sua vida esparramada por todos os lugares, subir em rodopios e voar em danças de loucas borboletas furta-cor. E tudo brilha. Seu corpo flutua e ela se rende ao amor que pensa ter sido o maior de sua vida.

A mulher retoma o passo na direção do Sol. E sobem juntos a ladeira. E vem o fruto. Bendito seja o fruto. Um corpo frágil, olhos espertos, um amor maior que a vida. Uma vida presa em um corpo que não dava conta de tanta vida. Passarinho sem rumo, sem leme.

Engole o choro. Junta as forças de suas ancestrais. De todas as Aves Marias. “Valei-me Nossa Senhora! Eparrei Oiá, Eparrei Iansã, minha mãe”. Senhora dos ventos e das tempestades, mãe de toda graça e luz, Iara das cachoeiras estreladas. Pede benção, segura o rosário que fora da avó como se fosse sua salvação e sobe a ladeira.

Ela está novamente só. Tropeço. Segundo tropeço. O amor era de vidro e se quebrou. “Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar…” meia volta? Não! Ela segue com aquele filho que era sua redenção. Torna-se o leme. O rumo. Retoma a bússola. Gira e dança com passos fortes, carregados de todas que já foi. E segue.

Até que chega ao fim da ladeira. Lá está ele. Seu palco sagrado. Na plateia, tudo que trouxe na bagagem do início. Amores e desamores, mas sem lamentos, sem arrependimentos, sem olhar para trás. E ali, naquele palco iluminado, ela, majestosa, agradece. Dança e estremece o ar. Gira o corpo e os sonhos. Balança todos os seus feitos. Uma enorme gameleira é o centro de toda sua graça. Os galhos repletos de folhas verdes se curvam e a acariciam. Para o deleite de uns e desconforto de outros, aplausos!

Bravo! Bravo! Bravo! Ela agradece, segue seu caminho e colhe novos sonhos. Pinça pelo caminho tudo que lhe alimenta a alma. Não importa a direção ou sua próxima parada. Ela será quem escolheu ser, estará onde quiser estar. Talvez com alguém. Talvez não.

*

Salve a força ancestral feminina neste dia internacional da mulher!

Esse texto está publicado no livro: Autoria Criativa: por uma pedagogia da escrita criativa que será lançado no dia 25 de março às 18h30 no Centro Cultural Banco do Brasil- Brasília- CCBB.



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