Buscar
  • Juliana Dias

O dia das bruxas está chegando: vamos escrever um conto?

Bruxa no espelho

Dentro do espelho, uma bruxa. Obsidiana nas paredes, mosaico de espelhos cor de piche quebram a luz das velas em mil fragmentos. Pedras coloridas, calcitas, dolomitas, tudo que há de mais simples é um cristal parido da terra há milhões de minhocas atrás. Ela desfaz o capuz, despejando o cabelo até a cintura.

Chumaços de ervas amarradas em cinzal pendem do teto. Alfazemas, sálvias brancas, assapeixe e tomilho, despedaçando-se com qualquer brisazinha vinda da janela. A velha em corpo de menina cantava em boca chiusa, seus vocalizes de sirene agitavam a fumaça feito uma cobra em transe. As paredes de argila mostravam tapeçarias, desenhos toscos feitos à carvão, símbolos e círculos dentro de círculos.

Abaixo da janela, no altar, um pequeno pote de latão, a meia tampa, exalava um fumacê fragrante. Do bolso de sua túnica, ela produz um objeto pequeno, brilhoso. Toca em meu ombro, olhando fundo em meus olhos. E sorri os dentes da frente manchados de tabaco.

As prateleiras se agitam pelo vento entrado da janela. Um claque do vidro, estilhaço no chão. Medo pelas ventas, adentrando o corpo em frio rápido.

"Calma, é tua coragem que quer nascer.”

Clique, claque. Os madeirites da prateleira se tornam tambores nas mãos francesas. Os objetos caem, desequilibrados da dança das tábuas. Um a um, eles me escolhem, atirando-se ao chão em um caos selecionado. Um cristal arroxeado se lança à frente, suspenso em levitação de vento, trôpego, vacilante, e vai parar em minha mão.

No reflexo do espelho, uma procissão de velas flutua em minhas costas. Fazem um volteio pela cabeça e se enfileiram diante dos meus olhos.

A bruxa agora canta uma melodia ascendente. Clique, claque. Címbalos improvisados de tampas metálicas, tamboretes de colher de pau em crânios decorados de cravo e rosas rubras. Tum, pá, tum.

Minhas mãos aceleram em juntar os materiais, dedos iluminados de vela, algumas gotas de cera chorosa pingam sobre os tecidos, aglutinando as texturas em laços de linha. Os tomos de livros, códices e diários farfalham as folhas, vigiando o ritmo. Lantejoulas, brilhinhos tímidos, papel dourado, cores pálidas, tudo vai se misturando numa bola de materiais. Um cristal dentro, pó de turmalinas e o amálgama de badulaques vai ficando pronto. Meu dedo sangra dentro umas gotículas, cheiro de ferro e uma gota de suor umedece a mistura.

A velha canta, o ritmo suspende o tempo e largo no chão um patuá que fiz nascer dos dedos. Cansado, sorrindo, espaçoso de energia, o corpo tremeluzindo ainda ofegante, a bruxa me sorri.

Levo no bolso a extensão do que vivemos juntos. Dentro do espelho, o patuá e eu, velho em corpo de menino.


Por Lucas Lyra


Sugerimos a reinvenção do texto "A bruxa no espelho", usando a mesma frase do começo e a mesma proposta de enredo: um 'texto magia' que vai plasmando a sua entrada no espelho da bruxa. Como é esse lugar de fora do espelho? Como está o tempo? Como você se sente? Como é o final?

Você pode ir construindo as cenas em imagens (técnica do 'pincelar' com palavras') e escrevendo esse ritual mágico devagar, criando pequenos suspenses, mistérios. Vale misturar realidade com fantasia (cenas de filmes preferidos, pesadelos autorais, histórias de terror contadas pela família). Vamos?

Você pode enviar sua criação para nosso e-mail_ autoriacriativa@gmail.com ou inserir nos comentários (se for professor/a e aplicar na escola, conta para nós a sua experiência com essa proposta).



34 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo