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  • Juliana Dias

Contos de terror: quem gosta?

O Filho da Lua

Kai Negromonte

Ouviu-se da floresta um choro que queimava as almas como o fogo incendeia os corpos. Apenas um casal ousou verificar sua origem. Adentraram a floresta escura, tocha e rosário nas mãos, se depararam com o autor das estridências. Estava nu, envolto em uma manjedoura que mais parecia um altar. O luar se fixava no pequeno como se o exaltasse — tudo e todos eram insignificantes perante sua existência; não merecedores da atenção da Lua.

O casal se aproximou, levantando a tocha para enxergar melhor. Olhando a criança, seu único reflexo foi de esmagar o rosário em seus dedos e rezar para qualquer Santo que quisesse ouvir.

Na barriga do bebê, ao redor do umbigo, via-se, desenhado com sangue ainda fresco, o símbolo proibido.

— Sílvio, eu te implorei para que não saíssemos! Esta criança é uma oferenda a elas. Esta é a noite delas! Tu sabes! Por que achas que nenhum outro casal veio? Devíamos fazer o mesmo e voltar para casa!

— Como podes cogitar abandonar esta criança? Contemplai! Verás que é a criatura mais formosa que já viste!

O menino, que parara de gritar com a aproximação de corpos quentes, fora atingido pelo olhar do casal. Era, de fato, o bebê mais belo que já havia nascido. Seus rasos cabelos eram brancos, como se houvessem absorvido o luar. Seus olhos, o mais formidável tom de castanho.

— Vê, Ayana! Vê como brilha a Lua sobre seus olhos! Se tu me amas, deixai que eu ame também esta criança! Deixai que eu a proteja da fúria das demoníacas! Daremos a ele um lar! Uma vida! E muito amor! Ensiná-lo-emos a rezar por si e por nós! Este é o plano de Deus!

Por amor ao marido, a mulher aceitou. Abraçaram ambos a criança e o chamaram de Luan, filho da Lua. Levaram-no para casa, banharam-no, alimentaram-no e o amaram como seu. Deram-no tudo o que lhe foi prometido: um lar, uma vida e muito amor... até que as aparições começaram.

O filho da Lua cresceu entre os homens, mas nunca foi reconhecido como um. Pelas ruas, crianças e adultos especulavam que o garoto era filho de um diabo e de uma bruxa. Anciões, por outro lado, viam-no como uma bênção! Uma provisão divina! Afinal, desde que chegara ao vilarejo, não mais houve manifestação das obscuras. Tampouco de seu símbolo tão temido.

Sílvio e Ayana, seus pais, educaram-no da melhor forma que puderam. Tentaram fazer dele normal. Reprimiram-no até onde era possível. Pintariam seu cabelo se soubessem como. Até mesmo o ensinaram a rezar. Foram duros, mas foi por amor.

Ano após ano, na data de seu aniversário, o garoto insistia que os pais o levassem ao local onde fora encontrado.

— Deus desaprova tudo sobre o altar das malditas! Perguntai sobre isso mais uma vez e ficarás em vigília de 40 dias e 40 noites sem comer ou beber — respondiam os pais.

O filho da Lua se calava em frustração. Seria ele, também, desaprovado pelo Criador?

Completou 14 anos. Desde então, passou a ter sonhos que se repetiam todas as noites. Sempre uma mulher dançando ao ritmo do vento cortando à floresta. Outra mulher aparece. A primeira mulher, então, a convida. Elas se aproximam. Ardem ambas em chamas branco-azuladas até que viram pó. Das cinzas, enxerga-se a Lua. O garoto acorda. Seus pais o ordenam que reze por seus sonhos, e assim ele o faz.

Na noite do seu aniversário de 15 anos, não sonhou. Todavia, também não dormira. Avistou a floresta pela janela de seu quarto e desejou conhecê-la. Vislumbrou, de repente, uma luz que emanava do centro da floresta. Branco-azulada. Desejou conhecê-la. Quanto mais desejava, mais a luz aumentava. Desejou-a tanto, que, em algum momento, a luz explodiu. O menino apagou.

Na manhã seguinte, ouviu-se lamúrias no vilarejo.

— Voltaram! — choramingava uma senhora.

— Depois de 15 anos... Deus nos abandonou! — disse outra senhora em desespero.

— Quem voltou? Por que Deus nos abandonou? — perguntava o filho da Lua.

— Não ouso dizer! Vá à praça e olhai com teus olhos!

O símbolo proibido. O garoto nunca o vira, mas todos o conheciam. Seus criadores, uma vez, contaram sua história: era um aviso delas. Seus pais nunca contaram quem elas eram. Aparentemente, ninguém sabia. Sabiam apenas que elas existiam. Antes que a primeira casa fosse construída, elas já estavam aqui. Esta terra é delas. Não se sabe porque elas fazem o que fazem, mas ninguém ousa desrespeitá-las. Ano após ano, em uma noite específica, elas se manifestam. Todos sabem qual noite pertence a elas. Naquela noite, alma alguma se aventurava nas ruas. Todos temiam que suas vidas entrassem em risco, pois sabiam o que aconteceria na manhã seguinte. Pensar no símbolo era pensar nelas. Invocá-lo, era invocar maldição.

Naquele ano, após 15 invernos sem sinais de fúria, lá estava no meio da praça: uma estrela envolta em um círculo. Pintada a sangue. Não era grande, apenas dois palmos menores que uma roda de carroça. A dona do sangue era uma galinha adulta, morta no centro do símbolo. Segundo os anciões, não poderíamos comer aves por um ano inteiro — elas estavam amaldiçoadas.

Seus sonhos continuaram. Todas as noites, via as mesmas mulheres arder em chamas. No seu aniversário seguinte, o vilarejo sofreu com os mesmos presságios. O garoto vira a luz de sua janela e a desejou. Na manhã que se seguiu, a marca reapareceu na praça. Desta vez, maior. Pintada com sangue de bode. Os moradores do vilarejo não comeram carne de bode por um ano. No ano seguinte, o mesmo ocorreu, porém, com sangue de boi. Ninguém comeu gado por um ano.

No seu aniversário de 18 anos, o menino — agora homem — decidiu que iria atrás da luz que brilhava na floresta. Ele ansiava descobrir sua origem. Entretanto, naquela noite, a luz não apareceu. Símbolo algum apareceu na praça naquele ano. Alimento algum foi restrito aos moradores. Foi como no ano em que fora encontrado, diziam seus pais.

Desde então, o rapaz não teve mais sonhos. Tampouco viu luzes na floresta. “Estás livre enfim”, dizia o seu pai. E assim ele ficou: livre. Livre sem saber do quê. Nunca se sentira livre. Não nascera para ser livre. Sua família e seu vilarejo nunca o entenderiam. Seria preso, mas, se pudesse ser quem ele nascera para ser, estaria livre.

Ao completar 19 anos, cortou seu dedo e, com seu próprio sangue, desenhou o símbolo proibido na parede de seu quarto. Mais uma vez, nada nem ninguém morreu. Nenhuma luz apareceu. Seus pais, por outro lado, tentaram reprimi-lo. Tentaram fazê-lo rezar. Mas o rapaz não aceitou. Foi castigado. Açoitaram suas costas e prenderam-no em seu quarto. Estava encarcerado, mas seu espírito voava à altura das nuvens, e seu coração rangia com chama em seus átrios. Em sua prisão, inalou o cheiro da morte. A liberdade grudava aos seus ossos como poeira em móveis velhos.

No seu aniversário de 20 anos, acordou de madrugada ao som de gritos. Almas tamborilavam à luz da chama branco-azulada. Olhou pela janela. Todas as casas ardiam. Todas, menos a dele. Saiu de seu quarto à procura de seus pais. Encontrou-os mortos na frente da casa. Estavam centralizados em um desenho pintado com sangue: o símbolo proibido.

O filho da Lua avistou, enfim, o branco-azulado vindo da floresta. Despiu-se e caminhou em direção à luz. Os corpos de Sílvio e Ayana entraram em combustão assim que Luan se afastou. Mergulhado em êxtase excitante, deixou o vento beijar seus cabelos e adentrou o santuário. Na origem da luz, viu as mulheres de seus sonhos diante de um altar. As duas dançavam e se beijavam. Seu amor incinerava toda existência que tentasse reprimi-lo. Elas o convidaram para seu adro de carinho e o abraçaram. Os três foram consumidos pela Lua Cheia. O vilarejo nunca mais foi habitado.


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