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  • Juliana Dias

Tecendo a África em mim

Meus pés cansados pisam em terra quente. Calor de uma vida desvivida pelos meus ancestrais. No horizonte, a íris do Sol se deita, me encara e revela a caverna tatuada no baixo ventre desde tempos imemoriais. O último suspiro do Sol me empurra em espiral de mim mesma. São tantos segredos antigos que me perco em labirinto escuro e frio. Sinto cicatrizes de feridas velhas despertarem em minhas entranhas. Percebo pedaços faltosos em muitos dos meus corpos sutis. Um novo perfume escorre em mim e deslizo para o útero da terra e me deito em círculo de cinzas. Um espelho d’água turva me rodeia e três matriarcas se aproximam. São anciãs de luz com seus penachos africanos luminosos. Me circulam pisando os pés nas águas esparramadas ao meu redor, sobre as quais eu tinha criado espelho embaçado de mim mesma. Ao tocar os pés no líquido que me revela, as anciãs resgatam fios de vida que andavam embolados em meu coração. Se aproximam mais e a água se torna quente e cheirosa. Elas tecem, pouco a pouco, uma nova malha dentro de mim. Meu destino começa a se desdobrar em suas mãos e vejo a roca de fiar, os fios de algodão encardidos e tesouras. Em minha mente as moiras dão lugar às deusas negras e minha visão enxerga novas imagens que foram desveladas nessa roda de cura. O silêncio da África repousa em minha cabeça e sinto os unguentos de luz me preencherem de renda fina e delicada. As mães desfiam meus nós e a nova trama brilha em transparência de teia de aranha. Carrega estampas das estrelas. As tecelãs remendam as marcas de dor e abrem uma fenda dentro do meu peito e me dizem: ‘aqui é o espaço da intimidade que você soterrou com seus pactos de solidão’. Respiro novo ar e contemplo o espelho d’água que me abraça, agora translúcido como meus pensamentos. Agito um frasco que recebi e tomo um gole de luz rosa. Uma gargalhada estronda na minha garganta e atravessa meu chacra básico. Sinto serpente luminosa subir de baixo para cima e ir virando do avesso meus medos e minha paralisia. Caminho pelo círculo de cinzas e dou três voltas sobre meu próprio eixo. Estou a arrematar aquela nova costura de mim mesma. Agradeço e volto para casa. Não há mais labirinto e a noite já está plena do lado de fora. Danço sob o céu noturno e pulso novo registro na festa do fogo da minha existência.

Texto de Juliana Dias


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